Eu e Bukowski

Visitei a casa de Linda Lee Bukowski para uma reportagem que saiu hoje no caderno Ilustríssima, da Folha. Para assinantes, dá para ler aqui.

Ela casou com Charles Bukowski em 1985 e ficou ao seu lado até sua morte, em 1994.

Na foto acima, Linda no sofá de casa, tomando cerveja japonesa e usando camiseta da exposição que aconteceu na Huntington Library, em San Marino, Califórnia.

Nas paredes, todas as pinturas são de Bukowski. A poltrona branca, ao fundo, era onde o autor meditava duas vezes por dia, por 20 minutos, nos últimos 12 meses de vida, quando lutava contra um câncer.

Acima, Linda ao lado de uma pintura de “Hank” e uma foto de Dalai Lama. A qualidade das fotos ficou a desejar porque ela pediu para não usar flash.

Apesar de chamarem Bukowski de “beat”, ele nunca se considerou um (nem eu).

Aqui vai a continuação do texto que ficou de fora da edição impressa:

DALAI LAMA A Huntington Library fica a dez minutos do jóquei de Santa Anita, o qual o escritor frequentava nos dias úteis. Um vez por mês, Linda Lee e Bukowski saíam juntos de carro e cada um ia para seu “santuário”. Ela gostava de passear pelos jardins da instiuição.

Sua ideia original era transformar a casa em San Pedro num museu e centro de pesquisa, mas percebeu que não daria conta de tanto material.

“A quantidade de papel que ele tem é assombrosa, ninguém acredita”, diz, mostrando um quartinho da casa com ar condicionado onde mantém ainda alguns arquivos. “Muitos textos ainda não foram publicados. Ele não era só um escritor prolífico, eram todas são incríveis.”

Em 2004, ao ligar para a biblioteca para pedir conselhos, Linda conheceu Sue Hodson. Com o tempo, percebeu que não teria lugar melhor para cuidar de Hank. Pesquisadores com projetos para publicação podem ter acesso aos arquivos no local.

“Não queria fazer com as universidades. Fodam-se as universidades, não tenho o menor respeito por elas. É muita politicagem”, dispara Linda.

É ela quem cuida dos jardins da casa de San Pedro, assim como da piscina. Há um roseiral abandonado, e ela se desculpa por conta de uma forte dor nas costas. Pelos cômodos do térreo, muitas pinturas de Bukowski penduradas, estantes de livros e fotos de Dalai Lama.

“São meus dois garotos. Depois de Hank, qual homem, qual mortal, poderia ter em minha vida?”, ela diz, rindo.

Linda e Bukowski se conheceram quando ele fazia uma leitura no clube Troubadour, em Los Angeles, em 1976. Ela era celibatária havia nove anos, dona de um restaurante de comidas naturais e seguidora de um mestre indiano.

“Virei sua ouvinte. Ele estava fazendo suas experiências com mulheres para seu livro e eu não queria ser mais uma. Éramos um casal bem estranho de amigos.”

BMW Mas nem tudo eram flores na vida do casal, como ficou escancarado no documentário de 2003 “Born Into This”, numa cena em que os dois discutem no sofá e ele dá uns chutes nela (tem vídeo no Youtube).

“Era uma relação de amor e ódio”, diz à Folha John Martin, que criou a editora Black Sparrow Press em 1966 para publicar os trabalhos do então poeta underground Bukowski. “Ela deu uma base para ele, conseguiu minimizar a bebedeira, tomava conta. Podiam brigar de manhã, mas ele sempre tinha um lugar para voltar e uma janta à espera.”

Martin, que chegou a criticar o amigo quando ele comprou uma BMW nova, em 1979, não viu a exposição na Huntington Library, mas ficou impressionado e feliz com a notícia.

“Vinte e cinco anos antes de morrer, sua vida foi ficando melhor a cada dia, principalmente se comparado à infância terrível que teve. Ele era esperto o suficiente para saber disso.”

Para Martin, o autor sempre terá seus detratores, sejam os que criticam sua vida fora dos guetos ou os acadêmicos que não compreendem sua poesia, “direta, como uma bala no coração”.

“William Blanke, Walt Whitman, James Joyce, muitas figuras importantes foram outsiders a vida inteira e só foram reconhecidos muitos anos depois de mortos”, diz Martin, responsável por tirar Bukowski do emprego de 12 anos nos Correios e dar-lhe uma mesada de US$ 100.

“Hank teve mais sorte, não teve que esperar tanto.”

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