O que encontrei em “The Wall”

Roger Waters quer te fazer chorar.

Seja de emoção, por ouvir o mítico álbum “The Wall” ao vivo e a cores. Seja de tristeza, pelas imagens de cortar o coração projetadas num gigantesco muro, que vai aos poucos sendo construído no palco até esconder os próprios músicos.
 
Fui ver ontem o show da turnê “The Wall Live”, num estádio coberto em Los Angeles. Mesma cidade em que, há exatos “30 anos, nove meses e 16 dias”, como bem lembrou Waters, ele e a banda Pink Floyd lançaram a turnê original do disco, que completa hoje 31 anos.
 
Mas eu não chorei. Fiquei hipnotizada. E muito emocionada ao ver, com enorme destaque entre centenas de fotos em homenagem a vítimas das guerras, Jean Charles de Menezes.
 

Foi ao final do hino “Another Brick in The Wall (Part 2)”, com umas vinte crianças ao palco, todas com uma camiseta preta escrita “Fear Builds Walls”, cantando e batendo palmas, ao lado de um boneco feioso de marionete, grande e inflável. 

Ao acabar, num telão redondo, veio o rosto do rapaz, morto no metrô de Londres em 2005, confundido com terroristas. Na sequência, no quase silêncio entre canções, veio sua ficha completa, nome, nascimento, morte e local da morte.


 
Sergio Vieira de Mello, diplomata brasileiro da ONU morto em Bagdá em 2003, também apareceu em foto no intervalo da apresentação de duas horas, no meio de dezenas de outras personalidades, como Gandhi, Salvador Allende, Sophie Scholl, Neda Agha-Soltan e muitos soldados.
 
Mas isto são detalhes perto da parafernália visual que Waters constrói. “Very Broadway feeling but amazing video & sound”, escreveu Slash no Twitter, direto do estádio.
 
Primeiro e mais impactante foi o próprio “wall”. Na canção de abertura, “In the Flesh”, fogos de artifício iluminaram as laterais do palco, deu para ver uns pedaços de muro, e um aviãozinho surgiu do nada. Pimba! Derrubou quase tudo.
 
Aos poucos, o muro foi sendo reconstruído, até sumir com os 12 músicos da banda.

Roger Waters vinha à frente cantar às vezes. Todo de preto e tênis branco, ele vestiu capa estilo nazista, óculos escuros, pegou na metralhadora e “atirou” na multidão.
 
Em “Mother”, rolou uma dobradinha de Waters, 67 anos. Ao vivo e no telão, com um vídeo de 1981, cantando a mesma música. “Confesso que isto foi narcisista”, disse ao público.
 
Waters criou esta ópera-rock num período de depressão enquanto fazia turnê com o Pink Floyd, nos anos 70. As músicas são extremamente pessoais, falam de guerra (seu pai morreu na Segunda Guerra), mas também de mulheres e groupies (biquínis e peitos de fora surgem nos telões em “Young Lust”).

O paredão foi desculpa para imagens incríveis. Como um porta-aviões descarregando bombas no formato de cruzes, estrelas de Davi, símbolos da Shell, da Mercedes Benz. Em terra, um rastro de mar vermelho.

 

Ou desculpa para o guitarrista subir ao topo e fazer solos em “Comfort Numb”. Ou para jogar um boneco suicida em “The Trial”.
 
O famoso porco voador também apareceu, numa versão porco selvagem do mato preto, com dentes bem longos. Fez sua voltinha clássica e escafedeu-se.
 
E vou explicar porque não chorei. Tinha alguma coisa estranha no ar. A mensagem clara era anti-guerra e anti-capitalista. Adoro este clima anárquico, a rebeldia e tal.
 
Mas era tudo um pastiche. Os sinais do consumismo destrambelhado estavam todos ali, na nossa cara. Um bando de americanos gordos comendo cachorro-quente, nachos e pizza ao meu redor. Sentados, comportados, mastigando non-stop. 

E também achei algumas imagens dos telões apelativas demais. Como uma garota sorridente, na sala de aula. Seu sorriso vira espanto, e depois choro, e berreiro, e acaba num abraço no suposto pai soldado que volta da guerra. Porra, pediu pra chorar.
 
Ou o vídeo dos jornalistas da Reuters sendo mortos por engano no Iraque em 2007, durante a música “Run Like Hell”. É de arrepiar.
 
E, claro, depois da ladainha rock’ and’ roll anti-capitalista, você é recebido por uma banquinha oficial de camisetas estacionada bem à saída do show. Pior, eu quase entrei na fila para comprar uma!
 

Foi um dos melhores shows da minha vida. Mais atual impossível. Mas alguma coisa se perdeu nestes 30 anos. Não dá pra negar. Fica um gosto meio estranho na boca.
 
A turnê começou em setembro, em Toronto. Tem datas até o final de 2011, pela Europa. Nada de América do Sul, por enquanto.

OBS. as fotos toscas são um oferecimento do meu celular. Mais fotos de muro estão em Breaking the Wall, e mais de porco voador em Breaking the Wall 2.

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